U2, obrigada pela visita à odiolândia

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“Brasil, você não vai retroceder”, pregou Bono no palco montado no Morumbi, na quinta-feira em São Paulo. Atrás dele, um telão gigantesco com as Mães da Praça de Maio, o símbolo contra a ditadura argentina. O U2 havia cantado Mothers of Disappeared, em homenagem a elas, e agora o cantor mencionava o Brasil. Algumas músicas depois, o baterista Larry Mullen Jr. exibia a camiseta: “Censura nunca mais”.

Anos atrás, ou talvez apenas meses atrás, eu teria achado tudo um truque fácil, vazio. Mais um agrado ensaiado da banda global que visita o sul do mundo na turnê de 30 anos do álbum The Joshua Tree, de 1987. Provavelmente é só isso ainda, mas era o exatamente que eu estava precisando.

Na mesma mesma quinta-feira, horas antes, uma manifestação em São Paulo se via obrigada a defender uma exposição sobre sexualidade no principal museu do país, o MASP, ante a onda conservadora recente contra as artes. O U2 deve ter ouvido falar do movimento e, como uma visita gentil que pergunta se está tudo bem com os anfitriões, resolveu incluir o tema. Com sorte, alguém lhes falou também de Odiolândia, a exposição de Gisele Beiguelman, no Sesc 24 de Maio, que recolhe comentários nauseantes da Internet que defendem o extermínio dos humanos da cracolândia.

Porque moro na odiolândia, porque mais de uma vez por dia eu me sinto ofendida pela normalização veloz de qualquer tipo de ofensa e impostura – contra as mulheres, contra os trabalhadores miseráveis no agronegócio ou nas fábricas de grifes, contra os quilombolas, contra as vítimas da ditadura – que agradeço ao Bono pela missa pop (que deve ir até quarta-feira na cidade). Agradeço por exibir um poema do cubano-americano Richard Blanco. Pela tela com as fotos de Maria da Penha, de Tarsila do Amaral e Taís Araújo. Por citar Cazuza e Renato Russo como nossos estelares.

Eu bebo e saúdo seus clichês quando a defesa dos direitos humanos e de igualdade virou uma sorte de mainstream oldfashion desprezado por parcelas crescentes de jovens. Já retrocedemos ao mais básico, e o jogo é fazer todos se cansarem da guerra cultural, terem medo, se recolherem. Vale tudo para mobilizar o mal-estar.

A banda fazendo troça com Donald Trump era também o esperado, mas me recordou que os supostos conservadores brasileiros estão copiando na cara dura o manual da extrema direita aplicado nos EUA e, em menor escala, na Europa. Seus gurus são os mesmos (leia aqui). Agora, eles dizem falar em nome do “povo”, para defender “o povo” contra a elite intelectual “esquerdista”. Tudo está no alvo, desde que seja para oportunisticamente defender “os valores da família”, para capturar a agenda. Fizeram com uma propaganda do sabão em pó OMO que ousou apenas dizer que não há brincadeiras exclusivas para meninos e para meninas. Será que o U2 já entrou no radar?

O espetáculo visual da banda era a nostalgia de uma época em que a globalização tinha algum halo positivo. A palavra de fé de Bono pairava sobre um público de média de idade bem maior que 30 anos, certamente de alta renda, dentro do abismo desigual brasileiro. O mesmo provavelmente se poderia dizer da manifestação no MASP? Quantos mobilizadores de extrema direita uma Anitta engajada neutraliza fora da bolha? Faz pensar sobre minha posição insular, que é de onde vejo todo o resto, e as reações que me parecem desbaratadas, como as que se voltaram contra a propaganda do OMO. A publicidade do sabão deixou de ser aspiracional para dar uma ordem de engajamento aos pais: mudem suas práticas com seus filhos. Talvez a crítica conservadora não tivesse tido tanto ascendência não fosse esse tom de ultimato da peça, que soa como um sintoma cruel de um certo modo de fazer militância progressista? Se a proposta da extrema direita é ultrajar e escandalizar, o desafio de cobrir jornalisticamente e reagir é também grande. A experiência norte-americana serve de modelo aos novos conservadores. Era bom que servisse também de reflexão e divã para todos.

fonte: El País

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